sexta-feira, março 10, 2006

Memórias do Festival RTP da Canção (1)

Apesar de não haver paralelismo possível entre a importância e a repercussão pública do Festival da Canção dos dias de hoje e os realizados nas décadas de 1960, 1970 e 1980, não é novidade que a canção vencedora origine controvérsia e se reúna um número saudável de vozes que protestam contra a escolha. Na edição deste ano, que terminou há minutos, ficaram para trás concorrentes que poderiam chamar a atenção no Festival da Eurovisão, a realizar em Maio, pelo colorido, alegria e qualidade das canções - casos de Bem Mais Além, pelos Mariafolia (com letra de António Pinho, ainda ontem aqui representado com um texto da saudosa Banda do Casaco), e de Sei Quem Sou (Portugal), por Vânia Oliveira. A pateada à anódina canção vencedora trouxe-me à memória a declaração que Cândido Mota proferiu aos microfones do Rádio Clube Português a 6 de Março de 1968, após a vitória de Carlos Mendes, com Verão, no 5º Festival RTP da Canção:

"(...) apurou-se como representante do nosso País para um festival in
ternacional uma canção que, de portuguesa, só tem o revestimento. Reflecte ela a procura desmesurada e cega de um som que se usa, que se consome. Aproveitou-se uma cadência rítmica que nos é estranha. (...) Uma acentuação melódica dos safanões para lhe dar um tom de pseudomodernidade (...), depois o intérprete encarregou-se de utilizar todos os tiques que constituem a débil encenação que se pretendeu montar."

Cândido Mota terminaria a sua alocução frisando as qualidades de Balada para D. Inês, o tema que José Cid levou à edição de 1968 do certame e com que arrecadaria a 3ª posição (ultrapassado apenas por Tonicha). Publicada no segundo EP do Quarteto 1111, esta canção - como A Lenda de El-Rei D. Sebastião, de inspiração histórica - era servida por excelentes arranjos orquestrais de Joaquim Luiz Gomes (figura incontornável da música ligeira portuguesa e autor de algumas obras menos divulgadas no ca
mpo da música erudita, hoje com 90 anos de idade) e era precisamente a canção de abertura do disco. Nas outras três composições apresentadas, confirmava-se a filiação psicadélica do grupo, bem patente em Partindo-se (sobre texto de João Roiz de Castelo Branco, compilado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) ou na singeleza folk de Vale da Ilusão (um tema baseado em textos Bíblicos). Dragão, regravado em 1971 no primeiro LP a solo de José Cid, continha já os gérmenes das letras vincadamente contestárias que o grupo apresentaria ao longo de toda a sua carreira. Das canções aqui presentes, apenas Vale da Ilusão não conheceu ainda reedição em formato digital.

Finalizando, desejo, obviamente, os maiores sucessos para Coisas de Nada, pelas Nonstop, no Festival da Eurovisão 2006, em Atenas. Seria bom que a opinião do público português e a dos presentes na sala se visse contrariada pela do júri europeu! Mas, depois de Lúcia Moniz e do seu sexto lugar em 1996, em Oslo, não me parece que o futuro nos traga surpresas positivas a esse nível...

1968
Columbia / Valentim de Carvalho
SLEM 2304

1. Balada Para D. Inês
(José Cid)
2. Partindo-se
(João Roiz de Castelo Branco / José Cid)
3. Vale da Ilusão
(Jorge Moniz Pereira)
4. Dragão
(Jorge Moniz Pereira)

José Cid (voz, teclas), António Moniz Pereira (guitarra), Jorge Moniz Pereira (guitarra baixo), Michel (bateria)
Joaquim Luiz Gomes (direcção de orquestra)


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Comments:
estive a assitir ao festival da canção na plateia! sinceramente..estou sem palavras ..a voz dos que estavam em casa, a voz do publico, nada serviu! Nonstop! gente que tenta o plágio! onde é que já chegamos!!

bjs doces no teu coração
 
É verdade... Enfim, temos sempre a esperança que as coisas melhorem e que as lições sejam aprendidas, mas depois apanhamos estas desilusões... Obrigado pelas tuas palavras e volta sempre! Beijos
 
penso k foi 1 real inxustixa a vania n ter sido apurada... Merecia mt + do k as nonstop
 
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