segunda-feira, janeiro 08, 2007

"O Cerco" reeditado em DVD

Saiu recentemente em DVD o filme "O Cerco", de António da Cunha Telles, o que é algo de histórico no nosso país e, portanto, digno de realce. Como já tinha chamado aqui a atenção num outro post, a grande maioria do cinema português encontra-se "encerrada" nos cofres da memória (ou do ANIM, o que sempre é um pouco melhor...), e então quando chegamos ao chamado "cinema novo" o panorama é mesmo desanimador. Mas pelas mãos da produtora Animatógrafo 2, da filha de António da Cunha Telles, e da Costa do Castelo, temos finalmente no mercado "O Cerco". Filme premiado na altura, e com um enredo desafiador do status quo da moral burguesa e conservadora, não pode também deixar de merecer destaque a banda sonora. Se, por um lado, há a música de António Victorino d'Almeida, com um tema recorrente em que surge o saxofone solo de Vítor Santos (ex-Thilo's Combo), por outro há as canções originais do Quarteto 1111, que surgem nas cenas de discoteca e que tão interessantes as tornam. É curioso notar a escolha da língua francesa, já que em disco nunca o grupo de José Cid gravou nessa língua, tendo apenas escrito "La Mansarde" e "Emporte-Moi Loin d'Ici" para Tonicha, em 1968. A excelência das composições do grupo (nem outra coisa seria de esperar) faz mais uma vez pensar: para quando a edição da integral da obra do Quarteto 1111?

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terça-feira, maio 09, 2006

Psicadelismo Magrebino

Em 1968, é publicado o primeiro single do Quarteto 1111, depois de uma carreira iniciada no ano anterior com o histórico EP A Lenda de El-Rei D. Sebastião. A este disco, tinham-se seguido outros dois de igual formato e, tal como o primeiro, fervilhantes de criatividade e originalidade nas propostas musicais que apresentavam. O rock psicadélico que abraçava todo o mundo parecia, assim, estender-se plenamente a Portugal. Não que o Quarteto 1111 fosse caso único - outros exemplos havia nesses anos de 1967 e 1968, como a Banda 4, os Chinchilas, o Conjunto Hi-Fi, o Conjunto João Paulo, os Ekos, o Grupo 5, os Jets, o Quinteto Académico, os Sheiks, os Tubarões ou os cantores Daniel e Nuno Filipe, citando só os mais importantes - mas representava, sem sombra de dúvida, a consciencialização mais encorpada desta tendência musical no nosso país. Posteriormente, surgiriam outros grupos de semelhante valia, mas em 1968 só o Quarteto 1111 poderia arriscar "lançar às feras" uma composição como Ababilah. Lado B de Meu Irmão - uma canção de contornos mais "canónicos" e alvo, aliás, de versões por parte de José Cheta (em 1972) e dos Irmãos Catita (em 2002) - este tema é uma viagem àcida às terras do norte de África, oferecendo uma panóplia de sons distintos e estranhos à música ocidental. Instrumentos exóticos, processos que em tudo se assemelham - à nossa modesta escala - aos utilizados por George Martin e pelos Beatles em Tomorrow Never Knows (1966), vozes imperceptíveis, experimentação jazzística - tudo isto se conjuga para a criação de uma obra musical fora de série. Infelizmente, Ababilah tem andado arredado de todas as edições em CD da obra do Quarteto 1111 - aguardemos, pois o futuro poderá reservar-nos ainda surpresas, já que para o ano se comemoram os 40 anos de A Lenda de El-Rei D. Sebastião.


1968

Columbia / Valentim de Carvalho
45 ML 244

1. Meu Irmão
(José Cid)
2. Ababilah
(Quarteto 1111)

José Cid (voz, teclas)
António Moniz Pereira (guitarra)
Mário Rui Terra
(guitarra baixo)
Michel (bateria)

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domingo, março 12, 2006

Cantando Pessoas Vivas

Em finais de 1974 foi publicado o último LP gravado pelo Quarteto 1111, Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas - Obra-Ensaio de José Cid, preenchido por uma composição única que ocupava os dois lados do vinil. Musicalmente, o grupo nunca tinha soado tão próximo do rock progressivo de uns King Crimson ou das tendências mais folk de uns Renaissance, com José Cid e os seus companheiros a construirem harmonias ora mais violentas ora mais doces. Se já em trabalhos anteriores o Quarteto 1111 comprovara que a sua escrita e competência musical podia abarcar sem problemas estes extremos, é preciso talento de sobra para construir uma obra de trinta minutos em que não é dada qualquer trégua aos instrumentos (nem ao ouvinte, refira-se). Para isso contribui inegavelmente a qualidade dos textos poéticos musicados, na sua maioria de José Cid. No entanto, um deles é uma adaptação de um poema de José Jorge Letria publicado no início desse mesmo ano de 1974 em A Arte de Armar.

O que aqui proponho, pois, é um simples exercício de comparação entre os dois textos. Apesar de as diferenças não serem em quantidade, não deixam de ser curiosas.


É Por Aqui Que Se Começa......................................Cantamos Pessoas Vivas

É por aqui que se começa:.........................................É por aqui que se começa
Pelas palavras simples................................................ Pelas palavras simples
Pelas pessoas vivas.......................................................Recusando a amargura
Recusando a amargura................................................ Nas margens do poema
Nas margens do poema................................................Pelas pessoas vivas

É por aqui que se com
eça...........................................É aqui que se começa
Pela ânsia de respirar
..................................................Pela fúria de começar
Com a voz em liberdade
.............................................Com a voz em liberdade
Sem estilhaços no olhar
..............................................Sem muralhas no olhar
.........................................................................................Cantando pessoas vivas

É por aqui que se começa
...........................................É por aqui que se começa
Pela fúria de começar
..................................................Pela fúria de começar
Usando palavras simples
..............................................Usando palavras simples
Cantando pessoas vivas
...............................................Cantando pessoas vivas
Mãos fechadas rente ao mar
......................................Ensinando-as a pensar

E depois de começar
....................................................E depois de começar
Embarcamos na canção
................................................Embarcamos na canção
Sem pompas nem grandezas
......................................Sem pompas nem grandezas
recusando a salvação
...................................................Com o povo no coração

Para isso serve a canção
.............................................P'ra isso serve a canção
Navalha de corpo inteiro
...........................................Navalha de corpo inteiro
Para dar o golpe certeiro
..........................................P'ra dar o golpe certeiro
Em quem lhe nega a razão
........................................Em quem lhes nega a razão

Acabar também é simples;
....................................... Acabar também é simples
Mais simples que começar:
.......................................Mais simples do que começar
Desenhamos um país
..................................................Desenhamos um país
Com o máximo rigor
..................................................Com o máximo rigor
Sem pessoas nem fronteiras
.....................................Sem pessoas nem fronteiras
E pomos-lhe no centro
..............................................E pomos-lhe lá dentro
As palavras derradeiras
.............................................Palavras certeiras
Para isso serve a canção
............................................Cantando pessoas vivas
Para vencer a confusão.............................................É por aqui que se termina
......................................................................................Pelas palavras simples
......................................................................................P'ra isso serve a canção
......................................................................................Defininindo a situação
......................................................................................Cantando pessoas vivas

[versão publicada em livro]...............................................[versão gravada em disco]

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sábado, março 11, 2006

Simone - Os Primeiros Passos (3)

Após ter perdido a voz, em 1969, Simone de Oliveira passa a trabalhar na rádio e só em 1972 volta ao mundo da canção. Curiosamente, fê-lo pela mão de José Cid e do Quarteto 1111, confirmando a sua vontade de mudança de repertório.

Em Novembro de 1972, data da publicação deste disco, o Quarteto 1111 era constituído por José Cid, António Moniz Pereira, Tozé Brito e Michel, e encontrava-se sem novos lançamentos no mercado desde o Verão do ano anterior. Esse compasso de espera terminou com Sabor a Povo, um single que quer no tema-título quer em Uma Nova Maneira de Encarar o Mundo anunciava já o som dos Green Windows. No entanto, as colaborações com outros artistas abundavam, como é o caso do disco de Simone que dá o mote a este texto, e nos mesmos dias em que é lançado o EP Glória, Glória Aleluia, são também editados trabalhos onde José Cid intervém ao nível da direcção musical - um EP de Vittorio Santos - e da composição - curiosamente, um single com a versão de Tonicha para Glória, Glória, Aleluia, que a cantora levou ao Festival Ibero-Americano de Madrid.

O disco de regresso de Simone conta assim com duas canções já divulgadas anteriormente - o tema-título e Retrospectiva, uma melancólica balada que fora editada no EP Camarada, de José Cid, nesse mesmo ano de 1972 - e com uma original, Hino do Amor. Não sendo um trabalho ousado a nível de arranjos musicais - nem tal se pretenderia, aliás - estamos perante um sólido conjunto de canções a que Simone de Oliveira oferece a sua voz agora quente e densa e em que chegamos a ter momentos de rock bem interessantes - precisamente em Hino do Amor, em que o grupo não deixa os seus talentos por mãos alheias.

1972
Decca / Valentim de Carvalho
PEP 1422

1. Glória, Glória Aleluia
(José Cid)
2. Hino do Amor
(José Cid)
3. Retrospectiva
(José Cid)

Simone de Oliveira (voz)
Quarteto 1111 (acompanhamento)

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sexta-feira, março 10, 2006

Memórias do Festival RTP da Canção (1)

Apesar de não haver paralelismo possível entre a importância e a repercussão pública do Festival da Canção dos dias de hoje e os realizados nas décadas de 1960, 1970 e 1980, não é novidade que a canção vencedora origine controvérsia e se reúna um número saudável de vozes que protestam contra a escolha. Na edição deste ano, que terminou há minutos, ficaram para trás concorrentes que poderiam chamar a atenção no Festival da Eurovisão, a realizar em Maio, pelo colorido, alegria e qualidade das canções - casos de Bem Mais Além, pelos Mariafolia (com letra de António Pinho, ainda ontem aqui representado com um texto da saudosa Banda do Casaco), e de Sei Quem Sou (Portugal), por Vânia Oliveira. A pateada à anódina canção vencedora trouxe-me à memória a declaração que Cândido Mota proferiu aos microfones do Rádio Clube Português a 6 de Março de 1968, após a vitória de Carlos Mendes, com Verão, no 5º Festival RTP da Canção:

"(...) apurou-se como representante do nosso País para um festival in
ternacional uma canção que, de portuguesa, só tem o revestimento. Reflecte ela a procura desmesurada e cega de um som que se usa, que se consome. Aproveitou-se uma cadência rítmica que nos é estranha. (...) Uma acentuação melódica dos safanões para lhe dar um tom de pseudomodernidade (...), depois o intérprete encarregou-se de utilizar todos os tiques que constituem a débil encenação que se pretendeu montar."

Cândido Mota terminaria a sua alocução frisando as qualidades de Balada para D. Inês, o tema que José Cid levou à edição de 1968 do certame e com que arrecadaria a 3ª posição (ultrapassado apenas por Tonicha). Publicada no segundo EP do Quarteto 1111, esta canção - como A Lenda de El-Rei D. Sebastião, de inspiração histórica - era servida por excelentes arranjos orquestrais de Joaquim Luiz Gomes (figura incontornável da música ligeira portuguesa e autor de algumas obras menos divulgadas no ca
mpo da música erudita, hoje com 90 anos de idade) e era precisamente a canção de abertura do disco. Nas outras três composições apresentadas, confirmava-se a filiação psicadélica do grupo, bem patente em Partindo-se (sobre texto de João Roiz de Castelo Branco, compilado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) ou na singeleza folk de Vale da Ilusão (um tema baseado em textos Bíblicos). Dragão, regravado em 1971 no primeiro LP a solo de José Cid, continha já os gérmenes das letras vincadamente contestárias que o grupo apresentaria ao longo de toda a sua carreira. Das canções aqui presentes, apenas Vale da Ilusão não conheceu ainda reedição em formato digital.

Finalizando, desejo, obviamente, os maiores sucessos para Coisas de Nada, pelas Nonstop, no Festival da Eurovisão 2006, em Atenas. Seria bom que a opinião do público português e a dos presentes na sala se visse contrariada pela do júri europeu! Mas, depois de Lúcia Moniz e do seu sexto lugar em 1996, em Oslo, não me parece que o futuro nos traga surpresas positivas a esse nível...

1968
Columbia / Valentim de Carvalho
SLEM 2304

1. Balada Para D. Inês
(José Cid)
2. Partindo-se
(João Roiz de Castelo Branco / José Cid)
3. Vale da Ilusão
(Jorge Moniz Pereira)
4. Dragão
(Jorge Moniz Pereira)

José Cid (voz, teclas), António Moniz Pereira (guitarra), Jorge Moniz Pereira (guitarra baixo), Michel (bateria)
Joaquim Luiz Gomes (direcção de orquestra)


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