terça-feira, abril 25, 2006

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004)

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quarta-feira, março 29, 2006

Mário Viegas Total

Ontem tive uma grata notícia: através do jornal Público, vai ser dado à estampa um trabalho da autoria de José Niza que compila em 12 volumes a carreira e a vida de um dos grandes actores portugueses da segunda metade do séc. XX. Falo de Mário Viegas, que, dez anos após a sua morte, tem assim direito a uma homenagem - póstuma... - de grande valor e onde a qualidade da investigação se encontra aliada ao saber e às vivências do Homem e Músico que é José Niza. No entanto, há ainda algo mais que não deverá fazer ninguém perder esta colecção: com cada livro, surgirá um CD que recupera a discografia completa de Mário Viegas. Esta, gravada na sua quase totalidade para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade, iniciou-se em 1969 - com o EP Mário Viegas Diz Poemas, onde o declamador é acompanhado musicalmente por Fernando Martins - e conheceu o seu derradeiro momento em 1990, com Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida Para os Mais Pequenos - um trabalho publicado pela UPAV e co-assinado pela também actriz Manuela de Freitas. Entre um e outro, ficam recriações históricas de grandes poetas portugueses, como Daniel Filipe, Mário Cesariny, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Manuel Alegre, António Gedeão, Alexandre O'Neill e tantos outros; e de alguns estrangeiros, como Bertolt Brecht ou Vinicius de Moraes. É de realçar que nesta colecção se compilam, também, gravações inéditas, que por razões de ordem vária não foram publicadas no seu tempo. De fora, ficaram apenas as participações em Marginal (1981), de Luís Cília, Cantos da Borda d'Água (1984), de Pedro Barroso, Lavrar em Teu Peito (1985), de Janita Salomé, e Corsária (1988), de Né Ladeiras - que, a meu ver, deveriam ter sido incluídas nesta integral - além de participações menos significativas em discos de Júlio Pereira e de Shila.

Impossível perder. Impossível passar ao lado. Mário Viegas continua vivo na sua arte de diseur e esta homenagem de José Niza e do jornal Público vem provar a todos isso mesmo.

Rifão Quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria in "Novos Contos do Gin", Lisboa, Editorial Estampa, 1973

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domingo, março 12, 2006

Cantando Pessoas Vivas

Em finais de 1974 foi publicado o último LP gravado pelo Quarteto 1111, Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas - Obra-Ensaio de José Cid, preenchido por uma composição única que ocupava os dois lados do vinil. Musicalmente, o grupo nunca tinha soado tão próximo do rock progressivo de uns King Crimson ou das tendências mais folk de uns Renaissance, com José Cid e os seus companheiros a construirem harmonias ora mais violentas ora mais doces. Se já em trabalhos anteriores o Quarteto 1111 comprovara que a sua escrita e competência musical podia abarcar sem problemas estes extremos, é preciso talento de sobra para construir uma obra de trinta minutos em que não é dada qualquer trégua aos instrumentos (nem ao ouvinte, refira-se). Para isso contribui inegavelmente a qualidade dos textos poéticos musicados, na sua maioria de José Cid. No entanto, um deles é uma adaptação de um poema de José Jorge Letria publicado no início desse mesmo ano de 1974 em A Arte de Armar.

O que aqui proponho, pois, é um simples exercício de comparação entre os dois textos. Apesar de as diferenças não serem em quantidade, não deixam de ser curiosas.


É Por Aqui Que Se Começa......................................Cantamos Pessoas Vivas

É por aqui que se começa:.........................................É por aqui que se começa
Pelas palavras simples................................................ Pelas palavras simples
Pelas pessoas vivas.......................................................Recusando a amargura
Recusando a amargura................................................ Nas margens do poema
Nas margens do poema................................................Pelas pessoas vivas

É por aqui que se com
eça...........................................É aqui que se começa
Pela ânsia de respirar
..................................................Pela fúria de começar
Com a voz em liberdade
.............................................Com a voz em liberdade
Sem estilhaços no olhar
..............................................Sem muralhas no olhar
.........................................................................................Cantando pessoas vivas

É por aqui que se começa
...........................................É por aqui que se começa
Pela fúria de começar
..................................................Pela fúria de começar
Usando palavras simples
..............................................Usando palavras simples
Cantando pessoas vivas
...............................................Cantando pessoas vivas
Mãos fechadas rente ao mar
......................................Ensinando-as a pensar

E depois de começar
....................................................E depois de começar
Embarcamos na canção
................................................Embarcamos na canção
Sem pompas nem grandezas
......................................Sem pompas nem grandezas
recusando a salvação
...................................................Com o povo no coração

Para isso serve a canção
.............................................P'ra isso serve a canção
Navalha de corpo inteiro
...........................................Navalha de corpo inteiro
Para dar o golpe certeiro
..........................................P'ra dar o golpe certeiro
Em quem lhe nega a razão
........................................Em quem lhes nega a razão

Acabar também é simples;
....................................... Acabar também é simples
Mais simples que começar:
.......................................Mais simples do que começar
Desenhamos um país
..................................................Desenhamos um país
Com o máximo rigor
..................................................Com o máximo rigor
Sem pessoas nem fronteiras
.....................................Sem pessoas nem fronteiras
E pomos-lhe no centro
..............................................E pomos-lhe lá dentro
As palavras derradeiras
.............................................Palavras certeiras
Para isso serve a canção
............................................Cantando pessoas vivas
Para vencer a confusão.............................................É por aqui que se termina
......................................................................................Pelas palavras simples
......................................................................................P'ra isso serve a canção
......................................................................................Defininindo a situação
......................................................................................Cantando pessoas vivas

[versão publicada em livro]...............................................[versão gravada em disco]

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